Quando escrevi sobre a história do movimento Calvary Chapel, senti que ainda faltava contar uma parte importante dessa história.
A história de como a Calvary chegou ao Brasil, mas também a história de como Deus me colocou no meio dela.
Porque uma coisa é estudar a história de um movimento. Outra coisa é olhar para trás e perceber que você estava lá, que viu algumas coisas acontecendo de perto e que, de alguma maneira, Deus permitiu que sua própria história fosse entrelaçada com aquilo que Ele estava fazendo.
Por isso, quero contar um pouco da minha experiência.
Não como alguém que tem todas as respostas, nem como quem quer romantizar o passado. Quero apenas contar como alguém que olha para trás e pensa:
Cara, a boa mão de Deus estava sobre aquele povo.
Quando tudo começou
A Calvary Chapel chegou ao Brasil no ano 2000, através de Tim e Talisa Rogers. Eles estavam a caminho da África, mas, pela providência de Deus, acabaram chegando ao Brasil e aqui permaneceram.
Naquela época, eu tinha 17 anos.
Eu havia me convertido havia menos de dois anos, de uma maneira bastante radical, depois da morte de um amigo muito querido. Minha vida tinha mudado completamente. Eu estava descobrindo Jesus, a Bíblia, a igreja e, aos poucos, também um desejo enorme de servir ao Senhor.
Eu fazia parte de uma igreja Batista que foi extremamente importante na minha formação. Aquela igreja me acolheu, meu pastor Marcos teve um papel enorme na minha caminhada e, até hoje, somos amigos.
Foi naquele período que fiz minha primeira viagem missionária.
Fomos para Foz do Iguaçu.
Eu não fazia a menor ideia de que aquela cidade, anos depois, seria minha casa e o lugar onde eu plantaria minha primeira igreja como pastor da Calvary.
Deus já sabia.
Eu não.
Os anos de ouro
Quando penso nos primeiros anos da Calvary Chapel no Brasil, gosto de chamar aquele período de nossos "anos de ouro".
Não porque tudo fosse perfeito. Não era.
Mas havia alguma coisa acontecendo.
Havia um entusiasmo que era difícil explicar.
Começaram a chegar equipes missionárias de Corvallis, no Oregon, e também da Califórnia. Eram grupos de jovens, famílias e missionários que vinham para servir, evangelizar, ajudar nas igrejas e simplesmente estar com os brasileiros.

Uma dessas equipes foi até a igreja Batista onde eu congregava.
Foi ali que ouvi, pela primeira vez, um casal cantando em inglês.
Lembro deles cantando "Senhor, Te Quero" e "Shout to the Lord".
Pode parecer uma coisa pequena, mas, para mim, aquilo foi muito marcante.
Era como se eu estivesse descobrindo um mundo novo.
Naquele primeiro ano, meu pastor Marcos foi convidado para ajudar com a documentação e com a diretoria da nova igreja. Ele, com muito carinho, aceitou.
E foi assim que novas amizades começaram a aparecer.
Em algum momento, meu pastor chegou para mim e disse:
Kaká, você tem coração para Jesus e para missões. Acho que seria incrível você estar junto desse povo, aprender inglês e ser um guia local para eles.
Eu achei a ideia muito boa.
Mas precisava de um empurrão.
Deus providenciou.
O Hotel Miami, em São Vicente
As equipes ficavam hospedadas perto do Gáudio, no Hotel Miami, que naquela época era uma das poucas opções disponíveis.
De lá, eles começaram a se espalhar pela cidade.
Praças.
Colégios.
Praias.
Comunidades.
Onde aparecesse uma oportunidade, eles iam.
Um dia, uma equipe foi fazer evangelismo em um colégio na esquina da minha casa.
Eu fui passar o dia com eles.
Foi incrível.
Acabei ficando bastante tempo conversando com um brasileiro que fazia parte da JOCUM. Eu tinha acabado de voltar de uma viagem com a JOCUM, então tínhamos bastante assunto.
No final daquele dia, ele me convidou para ir até o tal Hotel Miami.
Eu aceitei.
Foi ali que pude conversar mais com o Tim e com os outros integrantes da equipe.
Depois daquele dia, comecei a fazer tudo o que podia para estar perto deles.
Queria aprender.
Queria servir.
Queria entender o que estava acontecendo.
E, sem perceber, Deus estava começando a me colocar dentro daquela história.
Parecia um avivamento
Hoje, olhando para trás, algumas daquelas cenas parecem histórias de avivamento.
Eu vi multidões ouvindo o evangelho.
Vi pessoas respondendo a Jesus nas praças, nas praias, nos colégios, nas comunidades carentes e em praticamente qualquer lugar onde aquele povo chegasse.
Alguns lugares eram fechados para igrejas e, por alguma razão, acabavam abrindo as portas para aqueles americanos.
Deus estava abrindo portas.
E havia um favor muito grande.
A igreja começou a crescer de maneira impressionante.
Havia conversões.
Havia pessoas chegando.
Havia gente sendo batizada e discipulada.
Havia líderes sendo levantados.
E algumas daquelas primeiras pessoas que se converteram se tornariam, anos depois, pastores e líderes da Calvary em diferentes partes do Brasil.
Eu estava vendo aquilo acontecer.
E tinha apenas 17, 18 anos.
Lembro de ver uma matéria no jornal Vicentino falando sobre o fenômeno da juventude americana vindo até a primeira cidade do Brasil. Algumas imagens dos primeiros batismos na praia fizeram parte da matéria.
Até hoje, quando vejo aquelas fotos do jornal daquela época, elas mexem comigo de uma maneira muito profunda.
Porque eu estava ali.
O que aprendi naqueles anos
Aqueles anos foram fundamentais para minha formação.
Foi na Calvary que vi pela primeira vez uma igreja ensinando livros inteiros da Bíblia de maneira expositiva.
Foi ali que comecei a entender que a Bíblia não precisava ser usada apenas como um texto para apoiar uma ideia que o pregador já tinha. A própria Palavra podia conduzir a mensagem.
Foi ali também que comecei a perceber que o louvor não precisava "forçar a barra".
Não era necessário criar uma atmosfera artificial para convencer as pessoas de que Deus estava presente.
Deus estava presente.
Jesus era suficiente.
A Palavra era suficiente.
Também foi ali que ouvi aquela história tão conhecida de que a Calvary poderia ser como uma "Caverna de Adulão".
Existia um lugar para mim.
Um lugar para onde pessoas quebradas, improváveis e ainda em processo poderiam chegar, encontrar graça, ser cuidadas e, depois, sair para aquilo que Deus havia preparado.
Eu me identificava muito com aquilo.
Eu me sentia em casa.
Também lembro dos primeiros meses da minha conversão, quando comecei a caminhar com alguns jovens que, depois, se tornariam pastores.
O aspecto da juventude da Calvary sempre foi algo surreal. O pastor Chuck Smith era um grande entusiasta dos jovens. Ele acreditava no que Deus poderia fazer através daquela geração.
Alguns daqueles jovens começaram antes de mim.
Eu ainda não sabia exatamente o que Deus faria comigo.
Mas eu estava lá no começo da caminhada deles.
Eu vi pessoas sendo formadas.
Vi gente aprendendo a servir.
Vi gente perseverando.
Vi o que significa plantar uma igreja.
E comecei a entender que ministério não era palco.
Era serviço.
Era vida.
Era perseverança.
Uma geração sendo levantada
Foi também naquela época que comecei a ver a Calvary se espalhando para outros lugares.
Rio de Janeiro.
Curitiba.
Campo Mourão.
Foz do Iguaçu.
E outros lugares.
Era muito bonito ver Deus levantando pessoas.
Havia um entusiasmo enorme quando uma nova igreja nascia.
Não havia aquela sensação de "essa é a minha igreja".
A alegria era ver o Reino avançando.
Eu estava ganhando bagagem e amadurecendo, aos poucos, a ideia de um dia ser um pastor missionário.
Depois veio a School of Ministry.
E sou profundamente grato por aquele período.
Foi um ano surreal.
Ali começamos a ver uma primeira geração de brasileiros sendo treinada para pastorear, servir e ajudar nas novas igrejas que estavam surgindo.
Muitos daqueles alunos se tornaram grandes amigos.
E muitos continuam servindo ao Senhor até hoje.
Para mim, a School of Ministry foi muito mais do que uma escola.
Foi parte da formação de uma geração.
O chamado para as nações
Depois da School of Ministry, fui enviado para o Rio de Janeiro para estudar inglês e receber orientação cultural, preparando-me para um dia servir entre as nações.
Naquela mesma época, meu amigo Alexandre estava assumindo o pastoreio da Calvary Rio.
Eu pude servir na igreja aos finais de semana.
Foi um tempo especial demais.
Eu ainda estava tentando entender o que Deus queria fazer comigo, mas uma coisa começava a ficar cada vez mais clara.
Eu queria servir.
Eu queria plantar.
Eu queria ir.
Eu queria ver pessoas conhecendo Jesus.
E Deus ainda estava escrevendo a história.
Eu só não sabia que uma das próximas páginas seria em Foz do Iguaçu.

